O quarto do Rio Fashion Week não tentou encerrar a semana com uma tese grandiosa sobre o futuro da moda brasileira. Fez algo melhor. Preferiu falar de liberdade, legado e confiança na passarela. Das modelagens esculturais de Monique Argalji à cena ballroom da Dendezeiro, da construção conjunta entre Isabela e Chica Capeto à alfaiataria afetiva de Lucas Leão, até desembocar nos 35 anos de Lenny Niemeyer, o fechamento do evento foi costurado por marcas que entenderam uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo: o futuro só é possível quando se sabe de onde veio.
A Argalji abriu essa conversa pela forma. Na estreia de Monique Argalji em um line-up brasileiro, a liberdade apareceu menos como discurso e mais como método. A espuma, material geralmente condenado ao papel de estrutura invisível, saiu do esconderijo dos bojos e foi promovida ao protagonismo. Há algo filosoficamente elegante nisso: pegar um elemento de sustentação e recusar que ele exista apenas para servir ao outro em silêncio. Na Argalji, a forma extracorpórea aparece, interfere e redesenha.
A renda, por sua vez, ganha leitura inédita numa colaboração com a Duloren, marca fundada pelo avô libanês de Monique na Rua da Alfândega, no Centro do Rio, que amarrou a coleção numa herança familiar que atravessa três gerações de costura. O desfile costurou esse passado com uma pesquisa muito contemporânea sobre silhueta feminina, interior e exterior, estrutura e pele. Sua roupa não pede licença para existir, ela em essência é livre.
A liberdade apareceu em vários sotaques. Na Argalji, como foi com a experimentação radical de forma. (Foto: Argalji/RioFW)
Transformando a continuidade em movimento, Isabela Capeto apresentou o tipo de desfile que interessa justamente por não tratar o legado como armadura que restringe. A direção criativa foi dividida pela primeira vez com a filha, Chica Capeto, com a coleção “Dracena”. A discussão partiu da planta, passou pela arte brasileira e encontrou no neoconcretismo um princípio dorsal: a cor não é estática, a forma não é fixa, a roupa não se encerra no cabide.
Fúcsia, vermelho e amarelo cevada, em diálogo com Hélio Oiticica, tridimensionavam a cor; flores, folhas e insetos apareceram como fragmentos de um jardim em expansão; xadrezes e blocos geométricos davam estrutura para uma natureza utópica em construção. O mais bonito, porém, estava no subtexto familiar. Chica não entrou para conservar o que já é feito. Entrou para editar, deslocar, reposicionar. Legado não é sobre o que se mantém, mas o que se deixa metamorfosear.
Em Isabela e Chica, o legado se tornou movimento, em um diálogo entre passado, presente e futuro. Foto: Isabela e Chica/RioFW)
Já Lucas Leão tratou a liberdade por outra via: a do voo. Neto de alfaiate e de costureira de vestidos de noiva, ele levou ao Rio uma coleção em que a alfaiataria do Rio nos anos 40 se transforma em vocabulário contemporâneo. Em cortes precisos e quase disciplinados se atravessou algo que desafia a estrutura interna: seda, algodão, modelagens amplas e texturas de penas e plumas começam discretas e vão ganhando espaço até inundar o corpo em sua completude. O contraste é visualmente impactante porque retoma o legado de uma cidade do Rio da década de 1940 que não existe mais.
Havia um diálogo claro entre a organização do homem e a leveza do pássaro, entre a estrutura e o ar, entre o chão da tradição e a vontade de levantar voo. Os tons terrosos da coleção ajudavam a sustentar essa imagem: o homem parte da terra, mas não precisa se contentar com ela. Lucas segue sendo um dos nomes mais interessantes da alfaiataria brasileira justamente porque entende que cortar bem não basta. É preciso tensionar a forma, quebrar a rigidez do código e devolver à roupa um traço de invenção local, algum desvio que expande o tátil.
Lucas Leão buscou em arquivos do IMS e memórias de família uma forma de fazer a alfaiataria voar. (Foto: Lucas Leão/RioFW)
A Dendezeiro trouxe o momento mais inflamado da noite, com energia de pista e precisão de manifesto. “House of Dendezeiro”, nova coleção de Hisan Silva e Pedro Batalha, mergulhou na cultura ballroom com curadoria de Lunna Montty, nome da cena ballroom de Salvador. O corpo apareceu mais exposto, mais direto, mais afirmativo. Para além do tradicional algodão 100% tradicional da marca, o látex (usado pela primeira vez na marca) entrou em diálogo com o couro através de recortes envolventes e referências ao sportswear. Tudo em diálogo no conto sobre roupas que não se aquietam, provocam.
Havia erotismo, sim, mas um erotismo de poder, não de submissão ao olhar externo. Havia brilho forte nos rostos, quase andróides, como se aqueles corpos estivessem para além do humano ordinário,
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