Em Os vulneráveis (ed. Instante, 2024, trad.Carla Fortino), Sigrid Nunez retorna a um território que conhece bem: o do pensamento em movimento. Na trama, ambientada nos primeiros meses da pandemia de covid-19, a narradora aceita passar o início do confinamento no apartamento de uma conhecida distante – que fica presa em outro estado em razão da pandemia – para cuidar do papagaio Eureca. A situação inusitada torna-se ainda mais insólita com a presença de um terceiro personagem, um jovem amigo da família que também resolve passar o confinamento cuidando do papagaio.
O convívio entre os três cria uma espécie de laboratório das relações humanas em estado de crise. Como é ficar confinada em um apartamento com uma pessoa desconhecida? Há desconforto, silêncio e uma sensação constante de inadequação, sobretudo na dificuldade inicial da narradora em lidar com a presença do jovem. Mais do que um conflito geracional, o incômodo parece apontar para algo mais profundo: a recusa em reconhecer no outro aquilo que ameaça suas próprias certezas.
“Pense, disse Violeta. Ele pode ser útil para você. Não sabemos quão ruins as coisas vão ficar. Dizem que as pessoas em confinamento mais vulneráveis à depressão são as completamente isoladas. Pode ser bom para você ter alguém por perto, de preferência um jovem.”
Como em outros livros de Nunez, ficção e não ficção se entrelaçam. O romance avança por associações, digressões e reflexões sobre literatura, memória e saúde mental. Nietzsche, Virginia Woolf, Joan Didion, Sylvia Plath e outros autores aparecem para ajudar a pensar o mundo e o próprio gesto de escrever.
“Resignada com o fato de que, sempre que escrevo algo sobre escrever ou ser escritora, estou irritando demais algumas pessoas.
(Como refletir sobre a vida sem refletir também sobre a escrita?, pergunta Annie Ernaux em seu discurso ao aceitar o Prêmio Nobel.)”
A impressão de que todos os personagens são, de alguma forma, versões da própria autora, com suas opiniões, contradições e hesitações, reforça o caráter ensaístico do livro. Os vulneráveis não busca oferecer respostas, seu interesse está em observar as fissuras: nas relações, na memória, na sanidade e na linguagem. Sigrid Nunez parte da vulnerabilidade compartilhada e do isolamento forçado para construir um livro marcado por inquietações que atravessam a todos nós.
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Livro: Os vulneráveisAutora: Sigrid NunezEditora: InstantePáginas: 176
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