Existem dois tipos de pessoas com quem eu prefiro não conversar sobre cinema: aquelas que descartam animação como coisa de criança e aquelas que tratam o cinema nacional como um gênero inferior por definição.
O problema é que, no segundo caso, existe uma camada mais profunda do que simples preconceito. Existe formação. Durante décadas, o cinema norte-americano não apenas dominou o mercado, mas moldou o olhar do espectador. Mais do que entretenimento, ele funciona como um instrumento de difusão cultural e, em certa medida, propaganda de um estilo. Foi a partir desse modelo que aprendemos a reconhecer ritmo, estrutura narrativa, timing de humor e construção de clímax.
Quando um filme foge desse padrão, a reação não costuma ser curiosidade. É estranhamento.
Não por acaso, obras como Kokuho, La Grazia ou até O Agente Secreto encontram resistência. Já Ainda Estou Aqui, que dialoga de forma mais direta com essa gramática, encontrou adesão muito mais imediata, tanto aqui quanto fora. O mérito não diminui por isso. O filme é excelente. Mas sua recepção também passa por familiaridade.
Esse contexto cria um cenário particularmente cruel para o cinema brasileiro. Para ser levado a sério, o filme nacional precisa se provar o tempo inteiro. Precisa ser mais do que bom. Precisa justificar sua existência. Um filme mediano americano passa batido. Um filme mediano brasileiro vira evidência de que o cinema nacional é ruim.
É dentro desse ambiente que Conspiração Condor surge. E, sendo direto, ele não tem força para romper essa barreira.
Ambientado em 1976, o filme acompanha Silvana (Mel Lisboa, de Coisa Mais Linda), uma jovem repórter responsável por uma coluna de fofoca em um jornal de prestígio de São Paulo. A escolha é promissora. Colocar uma jornalista de entretenimento no centro de uma trama política abre espaço para um contraste interessante entre superficialidade e gravidade histórica.
A narrativa começa durante a cobertura do velório de Juscelino Kubitschek. Em meio a entrevistas protocolares, surge um elemento dissonante. Uma mulher afirma que sua filha estava no ônibus envolvido no acidente que matou o ex-presidente e que, segundo ela, não houve colisão alguma.
A partir daí, o filme engata sua proposta investigativa. Silvana, que sempre se sentiu subutilizada na coluna, passa a buscar outros passageiros, identifica inconsistências e encontra um padrão inquietante. Depoimentos mudam. Testemunhas desaparecem. Algumas morrem. Coincidências se amontoam num grau que a suspeita se torna conclusão.
A tensão se intensifica quando, poucos meses depois, João Goulart morre em circunstâncias igualmente suspeitas. Oficialmente, um infarto. Na prática, um evento cercado de dúvidas, agravado pela ausência de autópsia, que Silvana descobre ter sido evitada a pedido do governo brasileiro.
A conspiração está posta.
O problema é que, a partir desse ponto, o filme perde clareza sobre o que quer ser.
Em certos momentos, ele se aproxima de um retrato interessante da prática jornalística durante a ditadura. Observamos a redação, os limites impostos pelo censor que acompanha o trabalho e o risco constante de ultrapassar essas fronteiras. Em outros, o filme assume a forma de um thriller investigativo clássico, focado na apuração e nas revelações. E, ocasionalmente, ensaia uma terceira camada, quase ensaística, sobre como figuras de autoridade moldam percepções e induzem comportamentos, quase que como uma espécie de hipnose.
Nenhuma dessas linhas é problemática em si. Pelo contrário, todas têm potencial. O problema é a ausência de escolha. O filme acumula caminhos, mas não se compromete com nenhum.
Essa indecisão se traduz diretamente na condução dramática. As revelações chegam sem impacto. O espectador antecipa conclusões que o roteiro trata como surpresa.
O exemplo mais evidente envolve o delator que repassa informações sobre Silvana aos militares. A partir do momento em que essa presença se torna clara, o filme abre múltiplas possibilidades dramáticas. Poderia recair sobre o censor que era amigo íntimo de Silvana, poderia envolver o repórter com quem ela flerta. Mas o filme opta pela solução mais previsível: sua colega, quase inimiga, de trabalho.
E o problema não está apenas na escolha, mas no desperdício do que havia sido construído antes.
Marcela (Maria Manoella, de Vermelho Russo) surge inicialmente como uma jornalista política experiente, marcada pelo ambiente repressivo em que atua, e trata Silvana com impaciência e desdém. Em determinado momento, ao perceber a dimensão da investigação, ela oferece ajuda e revela o peso de exercer jornalismo político durante a ditadura. Fala sobre censura, sobre podas constantes e sobre o potencial transformador de uma matéria como aquela, evocando casos como Watergate. Aqui, o filme constrói algo interessante. Dá contexto ao comportamento da personagem e abre um caminho de redenção.
Mas abandona tudo isso na sequência. Ao transformá-la na informante,
Deixe a Sua Biografia aqui




Deixe o Seu Comentário