A Maré, maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, começa a viver uma mudança que há décadas era cobrada por moradores. A Águas do Rio, concessionária da Aegea, deu início a um pacote de obras de saneamento básico no complexo, que reúne 16 comunidades e cerca de 200 mil pessoas.
O investimento previsto é de R$ 120 milhões. A principal frente é a construção de um tronco coletor de esgoto com 4,5 quilômetros de extensão, chegando a 1,50 metro de diâmetro e até 11 metros de profundidade. A estrutura vai passar sob a chamada Rua Principal e receber o esgoto que hoje acaba lançado em valões, canais e rios da região.
A obra tenta atacar um problema antigo da Maré: o crescimento sem planejamento, com becos estreitos, vielas e áreas marcadas por esgoto a céu aberto. Esse cenário afetou por anos a saúde, a mobilidade e a rotina de quem vive ali.
Além do tronco coletor, outros 18 quilômetros de rede de esgoto estão sendo implantados no complexo. Desse total, 2 quilômetros já foram executados. Essas tubulações vão ligar casas e comércios ao sistema principal, reduzindo extravasamentos, mau cheiro e a presença de vetores de doenças.
Outro ponto do projeto é a recuperação do Rio Ramos, que hoje recebe grande volume de esgoto vindo de imóveis às suas margens. Uma nova tubulação vai conectar essas residências ao coletor principal, evitando o despejo direto no curso d’água.
Quando o sistema estiver pronto, todo o esgoto gerado na Maré será enviado para a Estação de Tratamento de Esgoto Alegria, no Caju, considerada a maior do estado. A expectativa é que cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês deixem de ser despejados na Baía de Guanabara. Em equivalência, isso representa 520 piscinas olímpicas.
“Estamos diante de um ponto de inflexão na história do saneamento do Rio. A chegada das obras à Maré representa muito mais do que infraestrutura: é a democratização da qualidade de vida, da saúde e da dignidade para 200 mil pessoas. É um passo enorme dentro do nosso desafio de levar saneamento a todos, de casa em casa, superando barreiras históricas e cumprindo a missão de transformar realidades”, afirmou Anselmo Leal, presidente da Águas do Rio.
Segundo a concessionária, as equipes que vão atuar no projeto serão formadas por moradores da própria Maré. A ideia é unir a execução das obras com geração de renda no território.
Para reduzir o impacto no dia a dia das comunidades, a instalação do tronco coletor será feita com método não destrutivo. A tecnologia usa quatro equipamentos conhecidos como “tatuzinhos”, que escavam o subsolo enquanto instalam a tubulação. Com isso, a obra exige canteiros menores e evita a abertura de grandes valas ao longo das vias.
Na prática, a escolha desse sistema busca diminuir transtornos para comerciantes, pedestres e motoristas que circulam pela Rua Principal, uma das áreas mais movimentadas do complexo.
A intervenção na Maré não se limita ao esgoto. O sistema de abastecimento de água também começou a ser modernizado. Pelo programa Vem Com a Gente, a Águas do Rio já atua na implantação de redes e na regularização do fornecimento para 60 mil casas e comércios, além de vistorias para localizar e reparar vazamentos.
Outra etapa prevista é a setorização do abastecimento. Serão instalados sete macromedidores para medir o volume de água que entra no complexo e 40 novos registros em pontos estratégicos da rede. Com isso, a concessionária diz que poderá isolar trechos específicos em casos de manutenção, reduzindo o número de imóveis afetados por interrupções temporárias.
A empresa também quer associar as obras a ações de educação ambiental e responsabilidade social. Um dos programas previstos é o Saúde Nota 10, que usa atividades lúdicas para tratar de preservação ambiental, uso da água e tratamento de esgoto com alunos da rede pública.
A proposta é levar o programa para as 54 escolas da Maré, alcançando crianças, adolescentes e educadores. A concessionária também afirma que vai reforçar o contato com lideranças locais por meio do programa Afluentes.
A obra na Maré passa a integrar um pacote mais amplo de expansão do saneamento no estado. Em pouco mais de quatro anos, a Águas do Rio informa ter investido R$ 5,5 bilhões em sistemas de água e esgoto nas 27 cidades onde atua. Até 2033, a previsão da empresa é aplicar R$ 19 bilhões para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto em toda a área concedida, sendo R$ 2,7 bilhões em intervenções no entorno da Baía de Guanabara.
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