ONG presidida por assessor de Isaac Ricalde recebeu R$ 400 mil em emenda de Dimas Gadelha. Relatos e documentos indicam descumprimento do projeto financiado com verba pública
Um projeto de aulas gratuitas de capoeira financiado com recursos públicos enfrenta suspeitas de irregularidades em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro. A iniciativa, chamada “Dança e Ginga”, recebeu R$ 400 mil via emenda parlamentar do deputado federal Dimas Gadelha (PT-RJ) e foi executada pelo Instituto Movimento, entidade com vínculos diretos ao vereador Isaac Ricalde (PCdoB-RJ), aliado político de Dimas.
A destinação da verba a uma ONG ligada a um aliado político fere o princípio da impessoalidade na administração pública e pode configurar improbidade administrativa. Até dezembro de 2024, Isaac Ricalde ainda figurava oficialmente como presidente da entidade. Mesmo após tomar posse como vereador, ele continuou relacionado à organização como diretor executivo em documentos vinculados ao projeto. Atualmente, a presidência do instituto está no nome de Carlos Eduardo das Chagas, seu subchefe de gabinete na Câmara de São Gonçalo.
Apesar do pagamento integral do repasse, a execução do projeto apresenta indícios de descumprimento. O plano aprovado previa uma estrutura ampla: 80 turmas de capoeira, 20 oficineiros, além de monitores, agentes mobilizadores, coordenadores e equipe de comunicação. No entanto, apuração da VEJA identificou aulas em apenas cinco polos e em número muito inferior ao previsto — com atividades registradas apenas dois dias por semana e em horários noturnos.
A mestre de capoeira Rosane “Kodak”, que aparece nas divulgações como coordenadora do projeto, afirmou que o projeto gratuito já foi encerrado. “Agora tem que pagar uma taxa. Aluno iniciante está 40 reais”, disse. Ela também confirmou que as aulas ocorreram em número reduzido de locais e questionou a possibilidade de novos participantes. “Não vai dar mais tempo não. Eu fui lá hoje no instituto”, afirmou à reportagem.
Outras inconsistências cercam o contrato. Os uniformes prometidos (600 peças), material gráfico e ampla divulgação não são visíveis nas redes da instituição. A contratação de equipe de mídia ocorreu apenas em setembro, quando as aulas já estavam em fase final, segundo Rosane. O Instagram do Instituto mostra algumas publicações, com imagens de alunos aparentemente experientes usando camisetas da própria instrutora — e não do projeto.
Ligações políticas
A parceria entre Dimas Gadelha e Isaac Ricalde é pública. Dimas fez campanha para o vereador nas eleições municipais de 2024. Em vídeo publicado nas redes sociais, Ricalde chama o deputado de “um dos melhores políticos da nossa cidade”. Já a professora de capoeira Rosane Kodak também é filiada ao PCdoB e nas redes sociais demonstra apoio a ambos os políticos, para quem pediu votos.
Apesar das evidências de vínculos políticos, Dimas e Isaac negam irregularidades. Em nota, o gabinete do deputado afirma que o Instituto Movimento foi selecionado por meio de edital público em 2023, com base em critérios técnicos e visitas in loco. Alega ainda que, à época da indicação, nenhum integrante da ONG ocupava mandato público.
Isaac Ricalde, por sua vez, diz ter deixado a direção do Instituto em dezembro de 2024 e não ter mais vínculos formais com a entidade, limitando-se ao papel de sócio-fundador. “Não procede a insinuação de vínculo político na destinação de emendas”, afirmou.
O Instituto Movimento também se defendeu, alegando que o projeto Dança e Ginga segue em andamento e que a vigência do convênio foi prorrogada até abril de 2026 por conta de atrasos no repasse. A ONG diz ainda que os relatórios finais não estão disponíveis na plataforma federal porque o projeto ainda não foi encerrado oficialmente. A professora Rosane, segundo o Instituto, não é coordenadora, mas apenas uma contratada.
Por Redação



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