Discutir o peso de competições históricas é uma tarefa ingrata. Sabe-se que, na ausência de um campeonato nacional, o Campeonato Carioca (ao lado do Paulista) já foi, por décadas, a principal competição de clubes do Brasil. O que muitos ignoram é que, mesmo após a criação do Campeonato Brasileiro, os estaduais ainda disputaram protagonismo por um bom tempo, em alguns momentos com importância bastante próxima à do torneio nacional.
Menos conhecido ainda é o fato de que clubes brasileiros já valorizaram mais seus campeonatos estaduais do que, pasmem, a própria Libertadores. Esse desconhecimento leva, hoje, a uma distorção: muitos simplesmente excluem os estaduais da lista de principais títulos de seus clubes, utilizando como régua o futebol contemporâneo, em que o Campeonato Carioca, por exemplo, é, no máximo, o quarto título em importância na temporada, quando não menos que isso.
Essa mudança de perspectiva gera discussões curiosas, especialmente entre torcedores mais jovens ou em debates na internet. É comum ver listas de conquistas que ignoram estaduais, mas incluem competições que nunca tiveram tanta relevância, sob o argumento de serem nacionais ou internacionais. Não é raro, por exemplo, encontrar listas de títulos do Flamengo que destacam conquistas como a Copa dos Campeões de 2001 ou a obscura Copa Ouro de 1996, enquanto deixam de lado os Campeonatos Cariocas vencidos pelo Rubro-Negro nesses mesmos anos, que, à época, tinham peso muito superior.
O que dizer, então, da omissão dos tricampeonatos do Flamengo em 1942/43/44 ou 1953/54/55, períodos em que o Carioca era, sem exagero, a principal competição de clubes do país?
Para ilustrar melhor essa questão, vale propor uma comparação que pode parecer inusitada: confrontar os antigos Campeonatos Cariocas com os Campeonatos Argentinos.
A ideia surgiu de uma conversa com um pesquisador do futebol argentino, a partir de uma discussão vista no antigo Twitter. Um torcedor do Newell’s Old Boys (clube que, na Argentina, não é considerado grande) argumentava que sua equipe possuía mais títulos argentinos do que clubes como Botafogo ou Fluminense têm Campeonatos Brasileiros. A questão levantada era simples: é justo atribuir ao campeonato argentino o mesmo peso do brasileiro?
Quem conhece melhor o futebol argentino sabe que há uma tradição peculiar: a existência de mais de um campeão por temporada. Em 2025, por exemplo, três clubes foram campeões no mesmo ano. O Platense venceu o Torneio Apertura (equivalente a um primeiro turno), o Estudiantes conquistou o Clausura (segundo turno), e o Rosario Central foi campeão da tabela consolidada da Liga (a soma dos dois turnos).
Se o Brasil adotasse esse modelo, teríamos cenários curiosos. Em 2025, por exemplo, o Flamengo poderia ser considerado bicampeão brasileiro (Clausura e Liga), enquanto o Palmeiras ficaria com o Apertura. Em 2024, o Botafogo teria conquistado três títulos nacionais em um único ano. Esse simples exercício já indica uma diferença relevante na forma de atribuir peso aos títulos.
Mas onde entra o Campeonato Carioca nessa comparação? Para responder, é necessário olhar para a história do futebol argentino.
O campeonato nacional argentino surgiu em 1891, ainda na era amadora, muito antes de o Brasil ter competições nacionais. No entanto, tratava-se realmente de um campeonato nacional? Na prática, não. Participavam apenas clubes de Buenos Aires e alguns poucos de cidades vizinhas da mesma província, como Avellaneda e La Plata.
Nesse contexto, esses títulos argentinos podem, sim, ser comparados aos antigos Campeonatos Cariocas, que também concentravam equipes da capital e raros participantes de cidades vizinhas, como Niterói e Petrópolis. Isso não diminui sua importância: tanto o torneio argentino quanto o carioca eram, em seus contextos, competições de elite, reunindo os melhores clubes disponíveis.
Na década de 1930, o futebol argentino passou a incluir equipes de outra província, Santa Fe (com clubes de Rosario e da cidade de Santa Fe). Curiosamente, esse movimento coincide com o surgimento do Torneio Rio-São Paulo no Brasil. Nessa fase, o campeonato argentino se aproxima, em formato e abrangência, do que foi o Rio-São Paulo: uma competição ampliada, envolvendo equipes da capital e de uma região economicamente muito importante (São Paulo e Santa Fe), mas ainda não plenamente nacional.
Somente em 1967 a Argentina instituiu, de fato, um campeonato nacional. Ainda assim, manteve o torneio tradicional, que passou a se chamar Campeonato Metropolitano. Durante um período, coexistiram dois campeonatos por ano: o Metropolitano (com clubes das regiões mais centrais) e o Nacional (mais abrangente). Ambos eram considerados títulos argentinos.
Posteriormente, com a consolidação de uma liga nacional, a tradição de múltiplos campeões foi preservada por meio dos torneios Apertura e Clausura, em que cada turno da temporada passou a valer como um título independente.
Diante disso, vale um exercício de imaginação. No recente confronto entre Racing e Botafogo pela Copa Sul-Americana,
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