Daniela Maia sabe o valor do tempo. Formada em Design de Moda na Parsons, a secretária municipal de turismo viu a mãe organizar a primeira semana de moda do Rio no Palácio da Cidade, nos anos 90. Filha do ex-prefeito César Maia, desde 2021 estava decidida a trazer de volta uma semana de moda à cidade. Teve conversas ao longo de quatro anos sem que nenhum nome lhe parecesse à altura do projeto. “Tudo tem um tempo”, lembra.
A parceria certa só apareceu em outubro passado, no primeiro dia da São Paulo Fashion Week, quando Gustavo Oliveira, COO da IMM (empresa que detém a marca SPFW desde 2018), topou a aposta: “Chegou a hora.” Cinco meses depois, a Rio Fashion Week abriu as portas no Pier Mauá com mais participantes do que o evento havia antecipado. Agora, a estreia passa a ser busca pela permanência. Mas teremos fôlego para sustentar isso?
“O investimento da prefeitura foi o que viabilizou a conta”
A Rio Fashion Week existe, em primeiro lugar, porque a Prefeitura do Rio topou bancar. A costura do acordo de aproximadamente US$2 milhões entre a IMM e o município, distribuído em três anos e com vigência até 2028, foi o que “viabilizou” o retorno, diz Maia. A projeção de impacto desta edição foi de R$100 milhões. A gestão do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), continuada agora por Eduardo Cavalieri (PSD), vem apostando nessa mecânica há anos: Madonna, Lady Gaga, Web Summit, Guia Michelin, Copa do Mundo a caminho e Shakira em poucos dias.
O modelo assume que o investimento público se paga em turismo, ocupação hoteleira e visibilidade internacional. Em levantamento, o Sindicato de Hotéis e Meios de Hospedagem do Rio de Janeiro (HotéisRio) registrou ocupação média de 73,35% dos hotéis nos dias do evento. “Trouxemos compradores, novas marcas e nomes consolidados, posicionando o Rio no mapa global da moda. É um investimento que retorna para a cidade em múltiplas frentes”, diz Oliveira.
O calendário brasileiro se reorganizou estruturalmente para receber o Rio. A SPFW, que acontecia duas vezes ao ano, concentrou-se no segundo semestre e cedeu o primeiro. Para Oliveira, é uma evolução estratégica. ”Identificamos uma demanda clara para a entrada do Rio neste circuito. Isso fortalece o Brasil no calendário global da moda. O país tem espaço para duas semanas de moda relevantes e complementares”. Já Maia é bairrista. “Eu acho que ela (SPFW) perdeu a força. Para crescer, a gente precisa ter duas semanas fortes. Eu até amaria.”
Questionado sobre o ponto de equilíbrio entre investimentos e arrecadação, Oliveira afirma que a primeira edição ainda não chegou lá, mas caminha próximo a isso. Já o volume de participantes no evento ultrapassou as 30 mil pessoas previstas inicialmente. “Já nascemos grandes, bem maior do que a expectativa,” reconhece Maia.
Parte da exposição “A Alta Costura do Carnaval”, com 50 figurinos de Henrique Filhos e produção ao vivo. Foto: Tempo Real
“O principal pilar de receita são os patrocinadores”
A poucos meses de uma eleição que vai redesenhar Presidência, governos estaduais, Senado e Câmara dos Deputados, a questão mira o futuro. O contrato com o município prevê a realização da Rio Fashion Week em 2027 e 2028. Mas a aposta política por trás do evento, sobretudo por ser sustentado majoritariamente por verba pública, depende de uma continuidade que nenhuma eleição é capaz de garantir.
Sobre a arrecadação, Oliveira é direto. “A receita de ingressos não é relevante dentro do modelo financeiro. O principal pilar de receita são os patrocinadores”. Foram 30 no total. Já com o ingresso social de R$50, permitindo acesso a desfiles, ativações de marca, palestras e a exposição “A Alta Costura no Carnaval”, o espaço foi aberto para um público que uma semana de moda brasileira raramente inclui.
Foi essa inserção que levou o stylist e diretor criativo paulista Guilherme Orlando a mudar o DDD por alguns dias: “Estudantes e criadores que não têm acesso direto às marcas têm a possibilidade de conhecer, explorar esse universo nos desfiles, fazer networking.” Já a modelista carioca Ana Luíza participou de sua primeira Fashion Week e gostou da programação diversa. “Eu também vejo o desfile também como um evento artístico. Se na arte o público geral têm acesso, por que a moda não?”.
O volume, no entanto, cobrou seu preço. A estrutura planejada para um número 30 mil de pessoas recebeu bem mais, e a infraestrutura sentiu. A movimentação entre as duas salas de desfile (Leme e Pontal), área de festa e de alimentação, pontos dos patrocinadores e os de ativação exigiu longas caminhadas pelo cais, e quem perdeu tempo em um ponto perdeu desfile em outro. Modelos escalados em marcas consecutivas precisaram correr entre desfiles;
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