Durante muito tempo, a escola ensinou a cena como um encontro quase cordial entre caravelas portuguesas e um território vazio à espera da ‘civilização’. Hoje sabemos melhor: havia povos, línguas, culturas, cosmologias e nações inteiras antes da chegada europeia. O que começou ali não foi um descobrimento, mas uma disputa de território, memória e poder.
Há exatos dez anos e um dia, em 21 de abril de 2016, ou 516 anos depois da pororoca entre civilizações, o mar voltou a reclamar seu protagonismo. Uma ressaca derrubou parte da Ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer, matando duas pessoas e expondo mais do que uma falha de engenharia: revelou uma certa vocação brasileira para construir sobre fragilidades e batizar obra como progresso. E, volta e meia, a vida vem em ondas, como diz a música mas também em memórias, num indo e vindo infinito.
A ciclovia é bonita. Mas pior que a encomenda, contrariando o ditado. Suspensa entre a pedra e o mar, fratura a paisagem como promessa de modernidade. Mas bastou o oceano se levantar para que o concreto cedesse. O mesmo mar que trouxe os portugueses. Depois os franceses. Depois os holandeses. O mesmo Atlântico por onde vieram também milhões de africanos arrancados de suas terras e transformados em mercadoria humana. O Brasil sempre esteve à sua própria margem. À beira de si.
Não só vieram mas ficaram pelo pau-brasil, pela cana-de-açúcar, o ouro, o café, a mineração, os ciclos econômicos que enriqueceram poucos e deixaram crateras sociais para muitos. Mudaram os séculos, mudaram os nomes, mas permaneceu a lógica de um triunvirato que se perpetuou pelas gerações: explorar rápido, erguer rápido, esquecer rápido. A ciclovia que caiu talvez seja apenas uma metáfora em concreto… armado.
Às vezes penso que o país inteiro se parece um pouco com ela: belo no cartão-postal, frágil na fundação, mas firme no propósito. Ou no projeto. Talvez por isso eu goste tanto da ideia de olhar para a história pela árvore genealógica. O Brasil não está apenas nos livros; ele senta à mesa de jantar.
Do lado paterno, meu avô era filho de uma descendente de mulher negra mas escravizada com um italiano. Minha avó, filha de uma indígena com um capataz português. Tudo isso no Rio Grande do Sul, onde muita gente ainda insiste em contar uma história mais europeia do que real.
Do lado materno, parte da família da minha avó carregava sobrenome de origem holandesa: Goes, que um dia foi Van Goes, quase Van Gogh, mas sem girassóis e com bem mais travessia.
Depois vieram as migrações internas, a mudança para o Rio de Janeiro, a vida ao pé do Morro da Mangueira, o país recomeçando dentro de casa. Porque somos essa mistura desconfortável e bonita: invasão e resistência, violência e afeto, herança e improviso — o que não é, hoje, nenhuma grande descoberta.
O post 22 de abril: o mar, o concreto e a memória apareceu primeiro em Tempo Real.
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