
‘Ele está amedrontado, não quer ficar sozinho no hospital’, diz advogado da família de jovem autista baleado por policial
Por Marcelo Cunha
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O caso do jovem de 30 anos, baleado por um policial civil durante uma abordagem em Magé, na Baixada Fluminense, está sob investigação da delegacia de Piabetá, onde o policial trabalha. No entanto, o advogado da família, Anderson Ribeiro, solicita que o inquérito seja transferido para garantir imparcialidade.
O jovem, que segundo a família é autista, permanece internado no Hospital Geral Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, Duque de Caxias, com um projétil alojado na perna. Apesar de estar lúcido e em estado estável, o jovem está profundamente abalado. “Ele está extremamente amedrontado, não quer ficar sozinho no quarto do hospital em nenhum momento. Tem medo que um policial entre e faça algo com ele. Embora seja adulto, tem uma mentalidade infantil e não entende por que isso aconteceu, questionando-se constantemente e afirmando que não fez nada de errado. Ele não consegue dormir bem à noite por medo. Os familiares estão se revezando para ficar com ele”, afirmou o advogado.
O agente que efetuou o disparo afirmou em depoimento que atirou no chão porque o jovem segurava um pedaço de madeira e fez um movimento em sua direção. O advogado da família nega essa versão e pede que a investigação seja transferida para outra delegacia para garantir imparcialidade, já que o caso está sendo investigado pela 66ª DP (Piabetá), onde trabalham os policiais envolvidos na abordagem.
“Três policiais participaram da abordagem: uma inspetora mulher, o policial que atirou e outro agente que registrou a ocorrência. Todos são da mesma delegacia. Parece que criaram uma narrativa para justificar a agressão injusta sofrida pelo rapaz. Acionamos a Comissão de Direitos Humanos da Alerj para acompanhar o caso e pedimos que a investigação seja transferida dessa delegacia”, declarou Anderson Ribeiro. “Acreditamos que, se continuar lá, a investigação será parcial. Como a delegacia dos policiais envolvidos pode ser a mesma que investiga o caso? Isso não faz sentido. Queremos que a investigação passe para outra unidade policial ou para o Ministério Público para evitar interferências. Essa é a nossa principal preocupação.”
O advogado também destacou que a polícia dificultou o acesso ao boletim de ocorrência. “Inicialmente, o policial que registrou a ocorrência não quis fornecer uma cópia à família. Uma inspetora também se negou a me dar uma cópia do boletim, alegando sigilo. Só depois de falar com a delegada é que conseguimos uma cópia. Sentimos que há uma blindagem”, ressaltou Ribeiro.
Além disso, Ribeiro afirmou que já acionou o Ministério Público e a Comissão de Direitos Humanos da Alerj para acompanhar o caso. Segundo ele, o jovem se assustou com a presença de uma viatura policial e correu. Ele foi perseguido pelos agentes e baleado na coxa, causando uma fratura exposta no fêmur. Duas testemunhas afirmaram ter presenciado o incidente, e uma delas está disposta a prestar depoimento.
“Uma das testemunhas viu tudo. O jovem se assustou com a viatura e correu. A polícia o perseguiu e atirou nele. Os populares, incluindo a testemunha e seu filho, gritaram avisando que ele era autista. Segundo a testemunha, os policiais apontaram a arma para a cabeça dele, e ela acredita que, se não fosse pela intervenção dos populares, algo pior poderia ter acontecido”, relatou o advogado, que desmentiu a versão dos policiais: “Em nenhum momento ele pegou um pedaço de pau. Essa foi uma narrativa montada para justificar o disparo.”
O incidente ocorreu no Bairro Parque dos Artistas. A vítima estava a caminho da casa de uma irmã quando um carro da Polícia Civil se aproximou. Assustado, ele correu e foi perseguido. O jovem entrou em um terreno onde foi baleado por um dos policiais. Em nota, a Polícia Civil afirmou que a vítima foi ferida por estilhaços. A família não acredita na versão de que o jovem encurralou o policial com um pedaço de madeira.
“Ele tem 30 anos, mas sua idade mental é de uma criança. Todos no bairro o conhecem. Ele não tem histórico agressivo e sempre foi dócil e simpático com todos. Ele correu porque ficou assustado. Poderiam tê-lo imobilizado, mas atiraram. Agora, está com pinos na perna, no hospital”, afirmou um familiar.
Na 66ª DP (Piabetá), o caso foi registrado como lesão corporal. Os três policiais envolvidos disseram em depoimento que estavam no local cumprindo um mandado de prisão para outra pessoa. Após o jovem ser baleado, ele foi socorrido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado inicialmente para a Unidade de Pronto Atendimento de Piabetá. Atualmente, está internado no Hospital Geral Adão Pereira Nunes, onde passou por cirurgia.
“O jovem ainda está com o projétil alojado e vai passar por uma nova cirurgia na terça-feira. A bala ficou próxima à veia femoral, então há risco. Se a veia tivesse sido rompida, ele poderia ter morrido”, destacou o advogado.
A Polícia Civil informou que a corregedoria foi comunicada e acompanha a investigação. A pasta afirmou que o registro de ocorrência não foi feito pelo policial que atirou e que ele não participa da investigação.
“O caso está sendo investigado pela 66ª DP (Piabetá). De acordo com os agentes envolvidos, durante uma abordagem, o homem correu e encurralou um policial civil, que, para resguardar sua segurança e integridade física, disparou em direção ao solo, na tentativa de repelir a possível agressão. Um estilhaço feriu a perna do homem. Ele foi imediatamente socorrido pelos agentes, que acionaram o Samu e o encaminharam para um hospital da região. O registro de ocorrência não foi feito pelo policial que realizou o disparo e ele não participa da investigação. O agente foi ouvido e diligências estão em andamento para apurar os fatos. A Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL) foi comunicada e acompanha a investigação”, diz a nota completa da Polícia Civil.
Marcelo Cunha
A Gazzeta RJ





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